quinta-feira, 16 de junho de 2011

A humanidade policial

Quem me conhece sabe-me admirador capaz de colocar de lado o seu sentido crítico quando se fala de Stanley Kubrick. Daí que a comparação que se segue seja feita sem nenhuma leviandade.
Tropa de Elite, o livro primeiro, é a descendência literária e brasileira de Full Metal Jacket. E garanto que isso é bom.
A primeira metade do livro é um conjunto de relatos da formação dos elementos do BOPE.
Formação em terror e violência, mas igualmente em humanidade e medo. Os elementos que levam os recrutas da BOPE ao seu comportamento focado e violento não estão explicitados nos relatos.
São jovens a caminho de um comportamento que os eleva aos seus olhos, como elementos de defesa do seu país e das suas famílias.
Ainda trazem algum idealismo e bastante receio do ambiente em que nasceram. Trazem expectativas para o que conseguirão concretizar.
Depois a formação vai dando-lhes mostra do que terão de enfrentar e de como o terão de enfrentar. A violência não os molda por lhes extrair a humanidade, mas por se lhe sobrepor.
Os relatos são, precisamente, de seres humanos a lidarem com aspectos que os ultrapassam. A medida do que se recebe nunca corresponde à medida do que se esperava e isso altera a pessoa que cada um é.
Numa instituição que se rege e reage pela violência em todas as suas manifestações, isso acaba por transformar o indivíduo também de forma muito mais violenta.
Já a segunda metade tem uma base ficcional através da qual se relatam diversas acções do BOPE.
A revelação das acções quotidianas do BOPE acaba por ser a metade mais excitante do livro, mas a menos interessante.
A necessidade de fazer um trabalho de denúncia das ligações conspurcadas entre os diferentes grupos com acesso ao poder debilita o texto, felizmente não de forma irreparável.
Tropa de Elite 2 cai muito mais no campo da segunda metade do primeiro livro, com um relato ficcional de denúncia que reproduz e homenageia elementos da vida real brasileira.
No entanto, continua a ser um livro que, como no melhor do primeiro, mostra a complexidade por detrás das acções que são relatadas a todos - embora, neste caso, Portugal não tenha um conhecimento priveligiado a esse nível.
Os dilemas humanos em situações extremas de guerra - e, talvez ainda mais, de guerrilha urbana - expõem as fraquezas silenciadas mais dignas de bondade e as forças arrancadas ao âmago do inconsciente mais dignas de reprovação.
Aquilo que ambos estes livros conseguem, no subtexto das suas intenções mais evidentes, é a abordagem realista e desglamourizada da força policial. Um propósito semelhante à denúncia da irracionalidade da Guerra do Vietname mas num campo ficcional que sempre priveligiou a banditagem.

Tropa de Elite (Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel)
Editorial Presença
4ª edição - Agosto de 2008
320 páginas



Tropa de Elite 2 (Luiz Eduardo Soares, Cláudio Ferraz, André Batista, Rodrigo Pimentel)
Editorial Presença
1ª edição - Abril de 2011
364 páginas

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