terça-feira, 31 de agosto de 2010

Assombrados

No final da Época Vitoriana, existe uma rapariga assombrada por um fantasma. As pessoas que com ela se relacionam vivem, por consequência, elas próprias assombradas.
Assombradas consigo mesmas e não com esse fantasmas. Uma mãe assombrada pelo seu papel de mulher, pela solidão e pela ideia de maternidade. Um pai assombrado pelo seu pensamento científico encarado com desconfiança religiosa e pelos seus instintos mais animais. Uma confidente assombrada pela preocupação e pela desumanidade.
São pessoas assombradas pelas características sociais que as suas identidades as obrigam a apresentar umas às outras.
A mútua incompreensão e o desajustamente são as verdadeiras sombras que as perseguem e atormentam.
Ainda assim assombração maior está longe de estar relacionada com a realidade destes personagens, mas precisamente com a existência da sua história.
Cada uma das respostas que estas personagens vêem no que se passa existe precisamente dessa forma indestrinçável mas inconciliável.
Sem uma resposta concreta, sem uma possibilidade que possa ser isolada das restantes, todas as hipóteses têm de existir simultaneamente.
A falta de compreensão e a vivência perpétua de todas as hipóteses é a assombração maior para qualquer pessoa.
São as histórias que assombram, aquilo que as pessoas constroem da realidade, não a realidade ela própria.
Uma história de fantasmas é, na verdade, a história das assombrações pessoais imateriais que acompanham todas as pessoas.
Toda a história funciona, não só pela sua qualidade, mas em muito pela sua estruturação das perspectivas, reveladas de tal forma que produzem novas leituras sem negarem categoricamente nada do que veio antes. A informação tanto ilumina como obscurece a realidade a cada passo.
Funciona, também, o narrador, incerto e (aparentemente) divergente até ao final, mas cujo poder construtor em jeito de disposição enigmática o torna bem mais poderoso quando, finalmente, é entendível sem ser liminarmente decifrável.


















Angelica (Arthur Phillips)
Random House
Sem indicação da edição - 2008
368 páginas

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