quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sofrimento mudo

A solidão desamparada, a pobreza inevitável e a crença desenraizada. Todos estes são tanto os sintomas como as causas da perdição humana.
Cada um dos que sofre - ou se decide a sofrer - em tais estados procura a solução nos locais mais
Neste caso, um mudo, em quem os desejos de humanidade de cada um dos demais se projectam para os satisfazer e iludir do que no mundo se passa - sobretudo se passa contra eles.
Mas nenhum desses que sofrem vê a existência singular desse mudo. Nenhum o compreende senão como aquilo que julga dele.
Daí que o suicídio deste último lhes seja tão estranho e visto com tanto egoísmo. Ele pertencia-lhes, era aquilo que eles queriam e ao suicidar-se deixou-os de novo entregues a si mesmos.
Nenhum deles compreendeu, nem mesmo o mudo que todos julgavam sereno e confiante, que não é pelos outros que se salvam ou que se olvidam dos males que os vitimam.
É por si próprios que deveriam encontrar as respostas, não inventá-las do exterior para dentro. A felicidade ou, ao menos, a esperança de tal estado só pode ser intrínseca.
Os tempos eram os piores para se viver, a Grande Depressão dos anos 1930 era arrasadora, mas os males que aqui se vivem são mais profundos.
As tensões raciais e políticas profundamente enraizadas num Sul (Americano) são expressões dos males que se carregam na alma. Os que sofrem só sabem sofrer, mesmo mudos e inexpressivos. E aquele lugar só os sabe tratar naquele incitamento ao confronto.

O livro de McCullers é intenso, fazendo da sua realidade narrativa um lugar sem julgamentos nem reflexões, mera janela atenta aos pedaços de vida dos quais nos pode nascer a consciência do que foi aquela década e aquele conjunto de pessoas.
A verdade é que o livro é escrito numa linguagem muito simples, herança do que a geração de Hemingway vinha definindo como rumo para o Grande Romance Americano.
Essa simplicidade chega, por vezes, a pontos demasiado primários. Não sei se será culpa da génese do livro ou de um tradução demasiado pálida do texto original, mas há páginas ao longo das quais não se percebe com que justificação a Time colocou este livro na sua lista de 100 romances do século XX.
O retrato poderoso dos desfavorecidos da Grande Depressão acaba desfavorecido pela linguagem. Embora isso não impeça que esta obra permaneça com o leitor.


















O Coração é um Caçador Solitário (Carson McCullers)
Editorial Presença
1ª edição - Abril de 2010
360 páginas

sábado, 24 de julho de 2010

À espera de mais

O apreço de Sedaris, desta vez, dirige-se aos seus países de eleição e aos "bons velhos tempos".
Como sempre, é emoção e saudade revelada de forma velada. Se há vergonha em falar da vida privada ou se há incómodo de quem está no lugar do receptor, nada mais simples do que acrescentar uma pitada de humor. Claro que a parte menos simples é acertar com esse humor para que torne as histórias interessantes e não ridículas, para que todos os leitores se possam identificar e regozijar com tais histórias.
Se o humor de Sedaris é certeiro, é o seu desavergonhamento que nos causa estranheza.
Um diário de um fumador a tentar desistir deveria ser um de dois, ou uma recolha de vitórias moralizantes ou de derrotas avisadoras. Um diário que fosse um manual de ajuda.
Numa sociedade que entregou a sua privacidade de boa vontade, David Sedaris ainda consegue fazer da privacidade um caso de transformação da visão que se tem do mundo.
Não se sai incólume destas crónicas, relativiza-se a perspectiva dos acontecimentos e a ideia de trauma que delas sobressai. E ainda assim isso sucede enquanto nos rimos sem o tentar controlar.
Fico à espera que Sedaris ainda não tenha deixado de chocar com histórias como estas e que ainda tenha muitas crónicas para serem compiladas em livro pois não tem sido norma encontrar escritores que façam o que ele faz com tanto talento.



















Diário de um fumador (David Sedaris)
Contraponto
1ª edição - Setembro de 2009
256 páginas

Humor sentimental

Se a imitação é a mais sincera forma de lisonja, talvez a humilhação seja a mais sincera forma de apreço.
David Sedaris expõe-se primeiro a si próprio e logo depois à sua família à gargalhada pública. Todos os episódios, não apenas os naturalmente ridículos mas até aqueles que pareceriam merecer apenas um sorriso momentâneo, são utilizados em função do humor. O que os torna interessantes e divertidos não é apenas o contexto ou as acções que neles decorrem mas a forma como Sedaris os encara.
Trata-se de olhar para os eventos com um bloco na mão acompanhado a imaginação de uma criança: é preciso tomar nota do que sucedeu, tê-lo bem presente, para depois partir para os pequenos devaneios que extrapolam a realidade para o campo da piada.
David Sedaris escreve-nos o seu ponto de vista dos eventos, um ponto de vista originalíssimo. Se não fosse não teria interesse. Qualquer cronista conseguiria fazer humor com o caricato, ele fá-lo com o comum.
Poderá parecer que a sua família sai mal tratada deste livro, mas eu discordo. A mim parece-me apenas uma família com o habitual conjunto de personagens que o "teatro da vida" convoca.
Parece-me antes que a família de Sedaris sai homenageada pela emoção que ele tenta encobrir no humor mais afiado - uma atitude típica de homem na sociedade, talvez.
É saudade o que ele tem de um tempo em que a família representava um contexto social e emocional mais rico, de um tempo em que o núcleo de uma casa podia degladiar-se no interior mas se defendia do exterior, de um tempo em que se dependia e defendia o sangue comum.
O humor de Sedaris é fortíssimo, daquele que prolonga a gargalhada tanto tempo que parece que se está a chorar a rir. Mas o riso pode estar apenas a disfarçar as lágrimas de genuína emoção.


















Álbum de Família (David Sedaris)
Contraponto
1ª edição - Junho de 2010
200 páginas

terça-feira, 20 de julho de 2010

Desgraçada aventura

Apetece-me brincar com as palavras e dizer que desgraça não é senão a forma abreviada que encontrámos para denominar os momentos em que o destino julga que tem graça.
Não fossem as piadas do destino que somente frustam quem lhes serve de motivo quando finalmente as percebem e as suas deambulações em sentido contrário pelas vidas comuns, as vidas seguiriam um rumo de sucesso e acalmia. Seria um sossego, mas não teria interesse nenhum.
As aventuras, nascem nesse acesso de raiva que é encarar o erro do destino e querer invertê-lo.
Até mesmo quando o destino parece ter tornado a vida melhor, isso é só uma ilusão aos olhos dos outros enquanto que, para si mesmo, a vítima se sente humilhada. Dar a vida mansa a quem quer a vida agitada ou a vida aventurosa a quem só quer descanso é a sacanice do destino que não perdoa por ser o maior Bufão que existe.
De pequenos equívocos - rasteiras, sem dúvida - em pequenos equívocos faz-se então uma enorme aventura, uma matrioska onde cabem outras aventuras, de um Coração das Trevas a Bonnie and Clyde.
Mas não nos esquecemos que todas as aventuras são, pois, desgraças, mesmo as que redundam em sucesso.
Cada momento de emoção e energia nasce do infortúnio do falhanço. Cada momento suspenso na expectativa vitoriosa nasce do erro. Cada momento de embaraçosa revelação nasce do que se quer mas não se pode, de facto, esconder.
O Olho de Hertzog é um aventura assim, desgraçada para os que se atropelam de encontro uns aos outros. Inevitavelmente chocam, mas chocam com graça e com o ímpeto de quem parece dado a tais embates.
Porque assim é a escrita de João Paulo Borges Coelho, duas corridas em direcção ao choque mas que ainda conseguem o efeito de surpresa. O fascínio de toda esta piada do destino resulta, porque de uma piada nasce outra e todas se encadeiam. E nós vamos por esse fio...


















O olho de Hertzog (João Paulo Borges Coelho)
Leya
2ª edição - Abril de 2010
448 páginas

sábado, 17 de julho de 2010

Um público para outros

Lendo o incício de ambas as séries de Scott Westerfeld de seguida compreende-se rapidamente que ele tem processos que se repetem e com os quais trata temas sensíveis para os jovens e lhes molda exemplos comportamentais.
Ainda mais importante é o facto de ele lhes dar as bases para um passo adiante nas suas leituras, criando uma obra em que o pano de fundo colhe de outras obras maiores de Ficção Científica.
Começando a exigir destes leitores em formação - de horizontes e de temáticas - ele dá-lhes a hipótese de se tornarem independentes dos processos de identificação e capazes de fazerem uma análise mais crítica e distanciada do que serão - ou não - capazes de ler.
Não estou, com nenhum dos dois livros deste autor que li, num domínio que me atraia particularmente, mas posso reconhecer, sem embaraço nem envolvimento, que o autor contribui em boa medida para o progresso dos leitores que tem cativados.
Não constranger um público que lhe paga o trabalho é uma atitude honrosa.


















Imperfeitos (Scott Westerfeld)
Vogais & Companhia
1ª edição - Julho de 2010
336 páginas

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Aos jovens adultos

A ficção para "jovens adultos" está hoje longe da ideia que dela se fazia no século XIX e também daquela que The Outsiders veio criar.
Muita desta ficção, hoje em dia, parece embuir um - ou vários - desses mesmos "jovens adultos" de um poder que os distingue e isola no seio dos outros. É um mecanismo reconhecido de identificação entre o leitor e as personagens que se pode ver claramente na banda desenhada, por exemplo, onde dos sidekicks adolescentes se passou ao super-herói adolescente, o Homem-Aranha.
O porquê disto é simples de compreender, trata-se de abordar as dificuldades dos anos de passagem à idade adulta. Dá-se ao leitor as bases que o leitor não consegue criar por si mesmo dado que, afinal de contas, não há ninguém mais isolado do que um "miúdo de cabeça sempre enfiada num livro".
Claro que esta táctica em particular cria outras possibilidades, um efeito de mercado que leva os "jovens adultos" dos 14 e não até aos 21 mas até, possivelmente, aos 40 anos.
Para os mais velhos a transição de idades ainda é uma memória ou, em certos casos devido à complexa mutação social moderna, uma realidade a acontecer.
Scott Westerfeld fá-lo de forma inteligente, proporcionando a todos por igual algo substancial com que percorrer o livro.
Se a sua narrativa é, por vezes, pouco mais do que comum a este género de livros, são os pequenos episódios da sua imaginação que o distinguem.
Verdade seja dita que as interacções são aqui, não poucas vezes, fruto de uma evidência inescapável. Os adolescentes vivem aquelas situações e a sua réplica em livro conforta-os. Passa-se rapidamente por cima disso para acabar por recordar com mais precisão pequenos momentos de rasgo num universo que, mesmo sobrenatural, é igual ao que a cultura popular já cristalizou como o típico liceu americano.
Para os "jovens adultos" é terreno familiar e confortável. Para quem não procura tal coisa pode ser um pouco desapontante.


















A Hora Secreta (Scott Westerfeld)
Vogais & Companhia
1ª edição - Março de 2010
232 páginas

terça-feira, 13 de julho de 2010

Personagem viva

Gyles Brandreth escreveu em torno de Oscar Wilde e dos seus companheiros literários um policial que tem, tanto a nível linguístico como formal, uma capacidade de ser aquilo que eram os trabalhos de Arthur Conan Doyle ou Robert Louis Stevenson: clássicos, magistrais e excitantes.
Este é um livro de um fôlego, exigindo uma leitura ardente sem artifícios, mas com uma dose de divertimento e argúcia que só está ao alcance de grandes escritores... e de grandes personagens!
Mais do que criar um policial assim tão refrescante na sua herança tradicional, elegante e riquíssima, Brandreth conseguiu tornar Oscar Wilde numa personagem.
Melhor dizendo, soube transformar a personagem que Oscar Wilde sempre foi em vida numa personagem sua, onde os ditos espirituosos lhe dão um charme e uma verve que um investigador brilhante como ele se revela deve ter.
Ditos espirituosos, uns verdadeiros outros imaginados pelo autor que soube incorporar o espírito da época e da transfiguração a ela que Wilde representava.
Oscar Wilde é o mais original e charmoso sucessor de Sherlock Holmes, mas pelas suas excentricidades e manias é muito mais do que isso.
Oscar Wilde é o culpado do mistério que tem de resolver, é por sua própria insistência que se coloca em perigo e se confronta com a necessidade de resolver um crime que ameaça tanto a sua como a vida da sua mulher.
Oscar Wilde é a origem e a resolução dos crimes, como o génio literário, bon vivant e diletante que era acima de todos os outros do seu tempo.
A perdição que no romance quase causa a si mesmo está em consonância com a perdição que causaria verdadeiramente na sua vida ao causar inveja e admiração em doses excessivas em todos quantos com ele se cruzavam.
Não havia mais extraordinário escritor para ser transformado numa personagem assim e, felizmente, não havia mais capaz escritor para o tornar numa personagem assim.
Uma personagem que era viva e que aqui revive com natural veracidade.


















Oscar Wilde e o Jogo da Morte (Gyles Brandreth)
Publicações Europa-América
1ª edição - Dezembro de 2008
320 páginas

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Um pai que somos nós

Por vezes senti-me quase indecente a ler estas crónicas de José Eduardo Agualusa, como se tivesse passado o risco e deixado de ser leitor para ser um voraz predador.
A culpa é dele - veja-se como já nem o trato por "o autor" - que confessa a si próprio com tal sentimento e honestidade que nos torna parceiros em vez de leitores.
O humor e o sentimento que coloca em cada crónica são deliciosos, momentos de pura ternura que cada um de nós quer para si mesmo e que tomamos sem pensar no assunto.
E Agualusa não se esquiva a falar dos seus sentimentos, a expôr aquilo que a sociedade disse por tantos anos que os homens deveriam esconder. Mais do que um novo paradigma de Pai, Agualusa trata de um novo paradigma de Homem.
Ele não disfarça os seus medos e as suas "fraquezas emocionais". Quando se ridiculariza é mesmo porque a situação o permite.
Estas crónicas são a forma saudável de cada um dos que foram/são/serão pais entrarem na vida dos seus filhos e se tornarem mais completos como seres humanos.
Nada se sabe sobre ser pai até se ser. Até lá especula-se, amedontra-se, desconfia-se, inventa-se. Um pai nasce logo quando a sua mente se inventa na expectativa de ser pai.
Muitas verdades nos ficam destas crónicas, muitos prazeres partilhados, muitas lembranças. Não são nossas, mas é como se fossem, tão abertamente partilhadas.


















Um Pai em Nascimento (José Eduardo Agualusa)
Alfaguara / Editora Objectiva
1ª edição - Março de 2010
146 páginas

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ensino satisfatório

Eis o retrato de uma década essencial à política portuguesa, de 1908 a 1918, feita com a maestria de quem tem muita informação a partilhar, de quem pesquisou bem as várias posições que surgiam no país, mas que nem por isso negligenciou o fulcro de uma obra de ficção, as suas personagens e a empatia com elas.
Perante uma família cujas dramáticas e dramatizadas relações internas recriam a turbulência de um país, a admirável economia de José Jorge Letria evita que o livro se reduza a uma barata noveleta, antes enriquece as breves páginas do livro onde cabe uma admirável quantidade de informação.
Informação que constitui cenário e contexto, não motivo do livro. O motivo é a história bem contada e bem idealizada, uma história que se segue com expectativa e que origina em nós emoções sinceras.
Lendo este livro acabamos por ter uma lição sobre a Primeira República sem darmos por isso. A leitura quase compulsiva é agradável o suficiente para darmos apenas por certo o tempo que passámos entretidos.

Não deixa de ser necessário um reparo, mais em jeito de aviso. Será conveniente ao leitor parar de ler ao chegar ao epílogo.
A pedagogia militante deste não condiz com o que foi o romance até ali e ainda que não o prejudique de forma irremediável, não deixa de constituir uma imperfeição evitável no que, de resto, é um interessante e sólido livro.


















O Vermelho e o Verde (José Jorge Letria)
Planeta Manuscrito
1ª edição - Abril de 2010
152 páginas

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A doença da imaginação

Se quiséssemos assinalar um objecto capaz de incentivar a imaginação, esse objecto é este livro.
Um livro que se faz não só da criação de doenças excêntricas e fascinantes mas da criação de um contexto tão extraordinário e excitante como o próprio conjunto de doenças.
Ainda para mais, trata-se de um livro sempre em aberto, capaz de acolher todas as novas criações que qualquer autor possa inventar para se juntar ao conjunto inicial.
O livro é um albergue acolhedor para a imaginação de todos os autores que se procure. A falta de uma verdadeira autoria do livro permite-lhes fabricar microcosmos de pura fantasia, ao nível do deslumbramento de uma criança.
Dar rédea solta a diversos autores para que escapem às suas construções mais complexas de universos literários para muito simplesmente se divertirem em torno de uma doença que podem criar sem limites nem obrigações de racionalidade.
Este é um livro que tanto homenageia como parodia um género literário que existiu e que deverá, ele próprio, ter muitas vezes inspirado a admiração e o delírio criativo dos autores que agora nele se recriam.
Não que deixem de ser, por vezes, criações críticas da realidade que conhecemos, mas o delírio é divertidíssimo, com uma imaginação incontrolável que arrasta o leitor para o seu próprio jogo pessoal de criação.
Para uma colecção que tem juntado algumas das melhores obras dedicadas à Fantasia, não havia melhor livro para assinalar o seu festivo número 100!


















Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (Vários)
Saída de Emergência
1ª edição - Maio de 2010
464 páginas

sábado, 3 de julho de 2010

Britcom

O particular sentido de humor inglês não se encontra apenas nas variadas séries que se agrupam como Britcom. Ao que parece está generalizado por todos os criadores que de lá originam, bastando uma oportunidade para o mostrarem.
Claro que a leitura deste livro de Andy Tilley não permite uma ilação destas, mas bem que a sugere.
Estamos perante um buddy book decorrido que corre pelos pubs, um género de trabalho que só um país com tradição de camaradagem alcoólica poderia fazer correr com tanta diversão.
Os dois amigos correm o livro todo a disputarem um contra o outro a concretização da melhor piada. É a forma deles se absterem e lidarem com aquilo que o seu plano de venderem vídeos de suicídios dificilmente faria prever, que são eles o último reduto de quem pretende acertar a sua própria morte.
A Reciclagem de Jimmy é sobre o convívio com a morte, a sua superação e a sua relativização. Só se pode lidar com o desejo de cada um de morrer pelas suas próprias mãos com o mais profundo humor negro. Dar a cada um uma morte espectacular e absurda permite rir do invitável destino que se pretende que não tarde mais.
Se é disparatado fazer piadas com a morte dos outros à porta, também o é fazer da morte uma questionável situação saída de um desenho animado. Tudo é disparatado, mas o disparatado é uma forma que se dá a tudo o que acontece para tornar a catárse mais fácil.
Rir é o melhor remédio para tudo e estes dois amigos fazem-no como ninguém. Num dia comum seriam dois alarves patetas que repreenderíamos na nossa mente. Nos dias sistemáticos em que são o último conforto e a última réstea de vida de quem escolheu morrer, achamos que eles são os mais admiráveis e serenos seres do mundo.

Há um outro ponto a assinalar, uma reflexão que o romance, muito discretamente, guarda no seu interior, a do canibalismo visual contemporâneo.
O mesmo que leva um jornalista a apontar a câmara a um parente de um morto e perguntar "Como se sente?" e que leva a que milhões de pessoas assistam a repetições inumeráveis de um homem a saltar do World Trade Center.
Se a ficção já explorou todos os limites, então a única coisa que nos resta ver é a realidade dos momentos que até aqui eram resguardados por genuíno pudor.
Vale a pena ser divertido e ser confrontado por este livro.





















A reciclagem de Jimmy (Andy Tilley)
Bizâncio
1ª edição - Janeiro de 2010
256 páginas