segunda-feira, 20 de junho de 2016

Término

A surpresa do primeiro livro fazia esperar uma evolução de Mary Kubica no domínio do thriller.
A autora tombou para o lado contrário que então se constatava, o romance exagerado até se tornar num melodrama "negro". O lado errado, portanto.
A categoria de thriller psicológico tal como agora está (tão) em voga está mal definida para que possa ser aplicada aos mais diversos livros. Não podem é caber nela livros que de thriller nada têm.
Essa tem sido uma situação cada vez mais recorrente e neste livro atinge o ponto de exaustão - se as editoras publicam tudo o que se partilha uma das características identificadas com o género ou se usam a etiqueta para despachar livros que não sabiam como "vender" é uma discussão a ter numa outra oportunidade.
Entre os principais contributos para tal, a ausência de suspense. Há um mistério porque a informação foi sonegada e a sua revelação é muito esparsa por culpa das variações entre a narradora que fala no Presente e os outros dois cujo ponto de vista está enraizado no Passado - o que também é a evidência de que a autora tem uma única ideia quanto à estrutura dos seus livros.
Decisivo é mesmo a falta de noção de ritmo. A preferência da autora vai para a exploração exaustiva dos elementos que possam transformar uma vida familiar conturbada num tormento e um quotidiano problemático num inferno.
A escrita repetitiva e a linguagem cruel são demasiado exploradas até que deixam de sugerir severidade para se tornarem maçadoras.
A autora está tão decidida a reforçar o tormento da realidade em que habitam os seus personagens que aliena o leitor pelo cansaço.
Personagens que são, elas próprias, encarnações dos males à sua volta. Uma dona de casa frustrada. Um marido misógino. Uma rapariga que a vida maltratou.
São suas as três perspectivas pelas quais a história se conta e são os mesmos estereótipos que vêm tornando estes livros indistinguíveis entre si.
A mulher é paranóica. Com alguma razão pois o marido mostra-se pouco interessado. Embora se descubra que ele não é assim tão mau e que os erros dela vêm do abandono.
Todos os livros como Vidas Roubadas são dramalhões acerca dos problemas de diálogo no seio de uma relação.
Isso toma prevalência sobre temas que são alvos mais lógicos de um thriller psicológico, o que aqui significa dar um lugar secundário à vida da rapariga sem-abrigo com um bebé nos braços até ser socorrida pela mulher que a viu na estação de comboio (e que, claro, ansiava por um filho sem o poder ter).
Não só mais lógicos, também mais significativos. A rapariga, como fica bastante óbvio desde o primeiro momento, sofreu demasiado para a idade que tem. O que, também é já bastante óbvio, significa que sofreu violência sexual.
Como a violência sexual é um recurso cada vez mais usado, o tema tem-se tornado banal e o seu efeito choque perdeu-se.
Banal para os leitores que atravessam a descoberta do sofrimento dos personagens sem hesitação. Igualmente para os autores - e, diria que tal é pior no caso de autoras - que o incluem nos seus livros como mais um dado de caracterização ou um evento a partir do qual podem revolucionar o sentido da sua história.
Deveria haver ponderação adicional quando se envolve uma jovem violada numa história que lida, predominantemente, com complicações matrimoniais e está cheia de elementos inúteis - quando não ilógicos - também de natureza sexual, seja uma decisão intempestiva de fazer sexo com o vizinho do lado ou uma atracção pela colega de trabalho permanentemente referida.
Depois de tanta repetição dou por mim chegado a um término. Com Mary Kubica e, sobretudo, com este estilo de livros que resumiria como o das acções ilógicas de mulheres perturbadas.


Vidas Roubadas (Mary Kubica)
Topseller
1ª edição - Outubro de 2015
336 páginas

sábado, 18 de junho de 2016

Mal intencionada

Perante o regresso de Tilly à pequena cidade onde nasceu o leitor interroga-se sobre as suas reais intenções.
A referência à sua louca mãe, largamente desprezadas pelos restantes habitantes, soa a uma desculpa depois de décadas afastada.
Mais fácil seria levar a mãe daquele lugar de onde a raiva a expulsou e o desprezo agora a recebeu de volta.
Tilly vai ficando deixando-se ser mal tratada. Parece sofrer de masoquismo, sofrendo quando se suspeita que terá a fugir de outra dor.
Se a dor que aquele lugar que lhe desfez a infância é menor do que aquela que a empurrou de volta é uma comparação que o romance só permite fazer demasiado tarde.
Por isso Tilly permanece perante o leitor como uma figura penitente. Até que o romance, não tanto o personagem, precisa de algo mais.
Precisa, sobretudo, que o talento de Tilly entre em acção. Daí que Tilly comece a deixar-se ser usada pelas mulheres da cidade para que lhes confeccione vários vestidos.
Não se trata de uma procura de aceitação, uma crença que o leitor não tem nem vê no personagem.
Tilly investe o seu próprio dinheiro em criar roupa que rivaliza com a das grandes casas de Moda, o que é excessivo interprete-se essa atitude como o exercício do seu talento para que não perca a mão ou como uma afirmação de superioridade contra uma sociedade desinformada na Austrália dos anos 1950.
Os vestidos fazem falta, sobretudo, a Rosalie Ham que aprimora a sua escrita aquando das descrições cujo destaque é ainda maior por entre uma escrita tépida.
O trabalho mantém Tilly na cidade o tempo necessário para que ela encontre alguém disposto a amá-la e ela volte a crer na maldição que os locais sempre lhe atribuíram.
O que na idade adulta parece significar crer que as atitudes alheias a encaminham para um desfecho trágico.
A partir daí o romance assume um tom mais negro onde a dissimulação toma prevalência. Tilly torna-se na tecelã de uma cruel vingança que, quando se confirma, parece desproporcionada e coloca em causa a própria leitura que se faz da protagonista.
Desde logo porque a autora se dedica a escrever capítulos pouco estimulantes sobre a criação de roupas para teatro que não criam expectativa alguma para o final que se esperava ameaçador.
No entanto é-o sobretudo porque o livro termina sem uma ponderação moral de quanto a pequena cidade merece que Tilly deixe todos os seus habitantes sem nada senão os trajes ridículos e abafados que criou para a peça de teatro que levaram a palco.
Não bastando a humilhação que causou, Tilly causa uma destruição completa, até contra o único que a tratou bem, um polícia que admira tecidos excepcionais ainda mais do que ela.
A autora quer fazer crer que Tilly foi tão mal tratada que a sua vingança está justificada. Mas ela tanto foi mal tratada pelas pessoas como pelo próprio destino (ou pela própria autora...).
Um personagem à deriva ao longo do livro. O seu comportamento deveria sugerir mistério de identidade. Ao invés mostra a indecisão que a autora teve sobre o que queria alcançar com o livro.
Falta um verdadeiro antagonismo a Tilly que não passe pelas suas próprias acções. Algo mais substancial do que as figuras com que ela popula a cidade.
Com eles a autora intenta um retrato dos pecados que estavam escondidos debaixo do puritanismo da Austrália rural dos anos 1950.
Para tal bastava ter menos de uma mão cheia de personagens bem definidas e melhor exploradas.
Como a autora quer reforçar o direito da protagonista à sua vingança, ela prefere acrescentar personagens com uma regularidade obsessiva e pouco ajuízada.
Personagens que têm uma presença de pouca duração e que se tornam todas demasiado parecidas visto que não ganham identidade.
A já referida tepidez da escrita reforça esse sentimento como também o faz a falta de imaginação da autora que distribui os mesmos (ou o mesmo tipo) de pecados - sexuais - pelos personagens.
São falhas em demasia no que é, evidentemente, um primeiro livro. O que significa que é mais uma intenção do que uma obra devidamente acabada.
Só a sua adaptação ao cinema justifica que recaia a atenção sobre o livro nos antípodas do seu país de origem, ainda que seja tratado - de forma injustificada - como uma espécie de clássico moderno Australiano.


A Modista (Rosalie Ham)
Editorial Presença
1ª edição - Novembro de 2015
272 páginas

sábado, 11 de junho de 2016

Resultado semelhante

Uma segunda ronda com Rosamundo Lupton depois da desistência perante o Irmã que continua a ser explorado na capa deste seu mais recente livro, não só sendo citado, também levando a um design quase idêntico.
Nenhum problema de consciência perante a decisão de então, apenas uma interrogação sobre a possibilidade de evolução.
Desta vez foi possível passar para lá de umas poucas páginas pois apesar da escrita não ter elementos que mereçam elogios, pelo menos já não depende das marcas para ter tentar ter personalidade.
Pelo contrário, até é através da reprodução de uma conta de Twitter que a autora consegue os (breves) momentos entusiasmantes pela exploração de como as palavras são entendidas pelos sentidos.
Essa é a conta de Twitter de uma menina surda que acompanha a sua mãe ao longo da trama e que é a muleta do livro.
Pertence-lhe a ela o ponto de vista na primeira pessoa - e, portanto, a única voz distinta - que interrompe a omnisciência do narrador.
Ainda assim uma voz pouco coerente, ao serviço das necessidades da escritora e não do próprio personagem.
A miúda de dez anos que, apesar de surda, está numa turma de sobredotados, ora analisa o mundo com uma maturidade de quem caminha rapidamente para os seus dezoito anos, como mostra estados de euforia ou receio em que se manifesta como não tendo ainda chegado ao seu sexto aniversário.
Ainda assim esta opção - como a própria presença da miúda, injustificada - é a que dá algum traço de personalidade a um livro que se alonga demais em elementos supérfluos que o impedem de criar o envolvimento de que necessita.
Não se assumindo, desde o início, como um thriller, o livro precisa que o leitor esteja investido emocionalmente para superar as muitas implausibilidades de que este faz uso.
Nada menos do que acreditar que uma mulher sem experiência consegue conduzir um camião em estradas geladas porque o seu curso de Astrofísica lhe permite compreender o funcionamento da máquina.
Ou que ela levaria a sua filha para tão perigoso ambiente quando vai em busca do marido movida por um pressentimento, ainda que a polícia o dê como presumivelmente morto.
Tudo numa escalada de drama doméstico que se resume como o de uma mãe de uma menina surda que, com medo de que esta tenha de crescer sem pai, parte para resgatar o marido que a tinha abandonado por uma mulher Inupiat.
O livro trata do percurso da mulher em direcção ao local onde o marido estava, dando tempo para explorar a sua relação com a filha e os medos mútuos, além do universo interno da rapariga.
Como isto é pouco interessante, a meio do livro a autora tem de lançar algum perigo que acrescente interesse à situação linear de um personagem a caminho de outro.
Lupton muda a estratégia e leva o drama para caminhos de algo que só com boa vontade se pode chamar suspense, adicionando elementos para lá do interior da cabine do camião.
Por um lado conseguindo ligar o portátil da filha à internet - do interior do camião que se encontra numa região isolada - e, a partir dessa situação, criar uma figura misteriosa que envia emails perturbadores.
Por outro demonstrando um medo da mãe em torno das luzes de camiões que se cruzam com o dela e que poderão estar a segui-las.
Neste momento a autora aponta ao thriller de forma artificial, usando de uma paranóia injustificada para tentar ligar o email bizarro e a suposta perseguição.
Foi esta estratégia ridícula para relançar o livro quando ele já vai a meio, mudando-lhe o tom, que levou à desistência.
Um resultado em tudo igual ao do primeiro livro de Lupton, por motivos diferentes. Embora no limite se possa dizer que a causa é, agora como então, a falta de qualidade da autora.
Larguei-o sem qualquer preocupação de saber o que acontece no final do livro, embora desconfie que seja relativamente fácil de concluir.
Afinal a autora tentou de forma pontual, por via de entrevistas de rádio e discussões em bares de camionistas, introduzir um vilão anónimo: as empresas que se dedicam ao fracking.
Apesar de serem conversas em "pano de fundo", a sua introdução é o contrário de discreta, pelo que me parece uma aposta relativamente segura dizer que a culpa do incêndio que terá morto o marido da protagonista foi causado por uma destas empresas (acidental ou propositado, tanto faz).
Marido que, obviamente, não está morto. Seria imoral que a autora deixasse uma criança surda orfã de pai!
Como ele é um fotógrafo para publicações sobre vida selvagem, terá obtido fotos dos crimes ambientais destas empresas e fingido a sua morte para se sentir seguro.
Seja ou não este ridículo enredo o que o livro seguiu depois da página cento e cinquenta, não há final capaz de compensar o tempo que se perde com Rosamund Lupton.
Da minha parte não voltarei a colocar-me na situação em que tenho de me livrar de um livro dela antes que termine.


O Som do Silêncio (Rosamund Lupton)
Jacarandá Editora
1ª edição - Fevereiro de 2016
296 páginas

sábado, 4 de junho de 2016

Frustrações

Tenho imensa vontade de descobrir autores portugueses de quem possa gostar com firme convicção e a cada livro que me chega renovo a minha esperança.
Embora não me possa sentir traído senão por mim mesmo, os dois livros sobre os quais escrevo aqui desapontaram-me em tudo excepto o design das capas cuja simplicidade atraente mas eficaz é tudo aquilo que os textos que resguardam não são.

No Trilho dos Seis Zimbros é bem escrito ainda que alguns dos contos dependem demasiado de diálogos um pouco livres demais no uso informal da Língua.
O problema dos seus seis contos é que cada um deles é uma história que não resulta em nada de gratificante.
O autor inicia as suas histórias sempre de forma familiar. Não só cenários quotidianos ao entendimento como cenários já presentes em muita ficção em vários meios.
A expectativa é sempre que o autor tenha uma ideia original para rematar o texto, surpreendendo o leitor que se limitou a reconhecer os caminhos mais habituais.
O autor não tem essas ideias originais, limitando-se a ir de encontro ao que é lugar-comum perante a construção feita.
Pior, há textos que nem chegam a um clímax para a história que lhes cabe contar. Não uma resolução extraordinária, apenas um momento de elevação que justifique o esforço de criação.
No início do livro até há vários elogios - de amigos, crê-se - acerca da oralidade e do talento de contador de histórias.
Quem o oiça poderá ser beneficiado pela entoação e pelo ritmo que melhoram as histórias, mas pela via da palavra impressa o autor apenas consegue frustrar quem lê.

A Cruz do Assassino inverte o problema do livro de António José Alçada. O interesse da novela policial não está em causa, o problema é conseguir resistir à sua linguagem.
No Prólogo até se dá o caso do protagonista falar do escritor como sendo quem transforma a sua narrativa num texto com a devida organização. E mais do que isso, com uma escrita que pretende escorreita mas nutrida da erudição ao seu alcance.
Ao leitor esse aparece como um meritório objectivo. Mau é que esteja negado logo nas páginas seguintes.
O autor não consegue abdicar das palavras que estão em excesso. Sejam elementos redundantes para as descrições, sejam expressões que contextualizam de forma demasiado meticulosa.
Ao fim de três páginas tem-se logo uma primeira quebra de ligação ao livro, com tantos parágrafos para dar conta de algo que ocuparia uma só página.
A partir daí o esforço é para superar o incómodo que a escrita vai causando, um elemento de permanente desconexão.
O esforço vai incrementando de intensidade pela sua repetição e há um momento em que a resistência se esvai.
Querendo saber como a história termina e perante o tempo já investido, desistir de continuar a leitura é a derradeira frustração - ainda que, ao mesmo tempo, libertadora.


No Trilho dos Seis Zimbros (António José Alçada)
Esfera do Caos
1ª edição - Fevereiro de 2016
104 páginas


A Cruz do Assassino (Paulo Bicho Garcia)
Esfera do Caos
1ª edição - Outubro de 2015
104 páginas

terça-feira, 31 de maio de 2016

Falta de identidade

Este livro pode ser representado pela sua mais jovem personagem, uma menina cuja identidade está por decifrar desde que a sua gémea morreu.
Como ela, o livro não sabe se o seu género é horror fantasmagórico ou thriller psicológico.
Como a identidade da menina se tornará clara na grande revelação final, também aí o livro mostra ser apenas uma drama familiar num embrulho mais atractivo.
Mesmo para apreciar o embrulho é necessário aceitar que duas gémeas de seis anos têm personalidades tão idênticas que a sua mãe não as distingue.
Ou que a solução para uma tragédia familiar combinada com uma crise económica é a mudança para uma mansão que custou cinquenta mil libras mas em que a família pode trabalhar para que o seu valor ascenda a dois milhões (nem vale a pena pensar quão imprópria estará a mansão será para lá se viver...).
Uma mansão numa ilha escocesa cujo ambiente S. K. Tremayne (um pseudónimo ambíguo para um autor claramente masculino) se esforça por fazer sobressair mas que permanece insípido.
Local remoto e que depressa fica isolado da localidade mais próxima a que se acede por barco ou, quando a maré está baixa, por um caminho pedonal muito perigoso.
A segurança da criança traumatizada pela morte da irmã não é uma real preocupação dos seus pais que, lá instalados, tomam decisões ainda menos razoáveis para a saúde mental da filha.
Entre elas não dialogarem um com o outro acerca do que testemunham no comportamento da filha quando estão a sós com ela, tentando ao invés manipular a realidade para agradar ao cônjuge.
Só mesmo a contínua irracionalidade dos personagens para haver trama que leve as páginas por diante e permitir algum grau de incerteza - que o autor deveria ter conseguido com a escolha do narrador.
A escolha do ponto de vista de Sarah - a mãe das gémeas - durante 90% do livro deve dar a sensação de que ela progride de um estado de fiabilidade para um de tormento, seja por estar assombrada ou louca.
O problema é que, como se descobrirá, Sarah nunca foi um personagem confiável, pelo que ter a sua como (quase) exclusiva versão dos acontecimentos é um erro.
A introdução do ponto de vista do marido é demasiado esparsa para ter significado. Aliás, só existe para dar conta de episódios que Sarah não pode testemunhar.
Teria de ser o confronto entre os dois estados de entendimento dos eventos a criar dúvida - e interesse - no leitor sobre qual dos dois está certo e qual das identidades corresponde à rapariga que sobreviveu.
Com isso a revelação final poderia não ser mais do que a realidade tornada evidente para quem a vinha pensado de outra forma, uma surpresa do que já estava diante dos olhos, apenas retorcido por interpretações individuais.
O autor não tem capacidade para isso, pelo que para a reviravolta se torna dependente da perspectiva da traumatizada Sarah e da ferramenta preferida dos que preferem sonegar informação a usá-la como matéria ficcional: uma amnésia parcial e selectiva.
O final do livro é uma torrente de informação que dá explicações simplistas para o que veio antes e desvia o foco de atenção para temas que nem estavam no livro - com razão!
A pouca valia do livro está anulada pelo seu péssimo final que, além da informação, atira à cara do leitor o desperdício que foi investir nesta leitura.
Algo que a indefinição da identidade da história já fazia desconfiar.


As Gémeas do Gelo (S. K. Tremayne)
Topseller
1ª edição - Setembro de 2015
320 páginas

domingo, 29 de maio de 2016

Incapacidade de criar

O cenário é o de uma cabana onde os personagens se isolaram durante um fim-de-semana. Consumo de álcool e cocaína, uma mensagem sobre assassinato durante uma sessão espírita, pegadas no exterior da casa, a linha telefónica cortada e uma tensão provocada por um personagem obsessivo.
Nesse instante, já para o meio do livro, as possibilidades são múltiplas. Horror ou thriller, provocados por um personagem externo que então aparece. Ou, ainda melhor, um simples crime a ser desvendado dentro dos limites daquele grupo no estilo de Agatha Christie.
O leitor será ingénuo por imaginar tanto assim. Aquilo que se segue é um desses thrillers psicológicos sobre uma mulher que se revela uma psicopata que continuarão a ser publicados enquanto haja filão para esgotar.
Afinal esta é apenas a história de como uma mulher tenta, da forma mais desajustada e violenta possível, salvar a face perante o fim eminente do seu noivado: matar o noivo e culpar outra pessoa.
Outra pessoa que é Nora, que vive assombrada há dez anos pelo fim da relação amorosa dos seus dezasseis anos com nenhum outro que o noivo de Clare.
Conclui-se que as mulheres só podem ser cabras psicóticas ou crianças assustadas em função do homem pelo qual definem a sua vida - no caso o mesmo que a sua vida amorosa.
A banalidade da segunda metade do livro, que ainda para mais é estruturada de forma deficiente, obriga a negar o benefício da dúvida que se deu à preparação do desfecho.
Só o instante em que todas as possibilidades eram possíveis afastava o terrível espectro de previsibilidade instalado desde o momento em que Nora aceita ir a uma despedida de solteira para uma (melhor) amiga com quem não fala há uma década e que nem sabia que se ia casar...
Essa previsibilidade não é uma manipulação para desviar a atenção do leitor do verdadeiro desfecho. É a única ideia que a autora conseguiu ter.
Tudo é mais pobre por ser Nora a personagem que nos serve de ponto de vista à história, uma escritora de policiais que não tem o raciocínio analítico para suspeitar do mesmo que o leitor.
Temos de a aturar deitada numa cama de hospital a recordar os eventos do fim-de-semana com medo e dificuldade. Nora não sabe se é a culpada pois sofre de uma conveniente (para que a trama tenha alguma duração) amnésia selectiva.
Pior são as suas recordações de há dez anos, que a tornam numa mulher ridícula no presente enquanto a mostram como uma adolescente que ora é totalmente insensível perante um aborto como exagera por completo perante uma rejeição e nunca mais fala aos seus colegas.
A história cabe nestes meros parágrafos mas isso não faz um livro capaz de vender. Para isso é preciso encher as páginas. Dos piores lugares-comuns, claro!
Como a cena final em que a protagonista, enfraquecida e desprevenida, foge do hospital para se ir colocar, sem apoio, numa situação de perigo pessoal de forma a provar que é inocente.
Ou, pior, como a caçadeira por cima da lareira - descarregada garante a anfitriã que os leva a ter uma lição numa carreira de tiro - cuja falta de subtileza é sobrecarregada porque a autora tem um dramaturgo a afirmar que ela o faz pensar em Tchekhov.
Como nota positiva diga-se que Ruth Ware tem um mérito, o de saber transmitir a ambiência envolvente e ameaçadora que os personagens vivem naqueles bosques.
O problema é que contra ele pesa a incapacidade para criar: personagens que não sejam representações de comportamentos extremos, uma estrutura que nos deixe em suspenso em vez de nos sonegar informação ou uma narrativa desafiante que não seja colagem de clichés.


Private: Los Angeles (Ruth Ware)
Clube do Autor
1ª edição - Abril de 2016
328 páginas

sábado, 28 de maio de 2016

O fardo da imaginação

Yann Martel continua a ser um homem cheio de imaginação. O problema, como com A Vida de Pi, é que lhe falta a inspiração e a transpiração para moldar as suas ideias na forma de boa ficção.
De tal maneira ele tem imaginação que desta vez ele concebe três histórias que em 1904, 1938 e 1980 (e pouco) vão dar a Tuizelo, uma aldeia em Trás-os-Montes.
Essa região é que constituiu as tais Altas Montanhas de Portugal, sendo que lá para meio do livro é dito que essa é uma denominação que lhe deram, se para afastar interessados ou para a publicitar de forma falaciosa, não se sabe.
Não importa, esse é mais um elemento da imaginação do autor, que ele usa como forma de elevar ao "maravilhoso" a base realista que cria com a qualidade da sua pesquisa.
Pelo menos crê-se que assim seja, pois não há vontade de verificar a realidade de conduzir um Renault no início do século passado ou a exactidão do percurso que Tomás faz por Lisboa.
O que deve interessar realmente é que em 1904 Tomás que caminha às arrecuas vai atravessar Portugal ao volante de um carro, máquina que desconhece por completo. Que em 1938 Eusébio ouve uma descrição de como Agatha Christie é a versão moderna dos Evangelistas antes de realizar uma autópsia cheia de impossibilidades. Que pelos anos 1980 Peter vai, por impulso, viver com um chimpanzé com quem avista o último dos rinocerontes-ibéricos.
Ainda assim estes são eventos superficiais, pois não podemos esquecer que Martel está à procura de significados profundos para a Fé e o Amor.
O que deve interessar ainda mais é que pelos anos de 1980 o chimpanzé de Peter se assume como mais um elemento da vida da aldeia e é o único que consegue encontrar o mítico rinoceronte. Que em 1938 Eusébio descobre que o corpo humano, como a história de uma vida, é composto por muito - mas muito! - mais do que orgãos. Que em 1904 Tomás persegue uma extrapolação miraculosa que fez a partir do diário de um padre e da sua referência a um crucifixo que trouxe de África.
Esta trindade de homens que perderam as esposas está numa espécie de viagem em contínuo que os leva de "sem casa" a "em casa", reconciliando-se com Deus, que se deverá concluir ser o esquivo rinoceronte.
Tal como os macacos que vão atravessando a narrativa devem ser as verdadeiras formas dos anjos dos quais ascendemos à nossa condição, pelo que Tuizelo deve ser um qualquer Éden onde homens e macacos podem conviver pacificamente e comungarem com o divino.
Haverá quem veja nestes elementos motivo para assombro. Seriam se o autor fosse além de uma tentativa tosca de dar sentido à salganhada.
Na verdade esta conclusão é apenas uma das muitas que se podem tirar do livro pois o verdadeiro resultado é um vazio de sentido.
Martel tentará fazer crer que está a depositar a responsabilidade nas mãos do leitor, mas na verdade está a ser preguiçoso com as decisões que tinha de tomar para os seus personagens e o seu estado de permanência no universo que criou.
Tal como está a ser preguiçoso quando se permite qualquer excesso incoerente com a etiqueta de realismo mágico, a que o autor não pertence.
Pois se falamos da sua "rica" imaginação, aponte-se aquilo que ela disfarça: a pobreza da sua escrita.
Há uma suposta procura de requinte escrito que resulta em metáforas pavorosas, seja porque se tornaram ridículas ou porque perderam o seu sentido. Basta transcrever um parágrafo para demonstrar ambos os casos.
O amor é uma casa na qual a canalização nos traz novas emoções gorgolejantes todas as manhãs e os esgotos descarregam as nossas disputas e as janelas claras se abrem para deixar entrar o ar fresco da boa vontade renovada. O amor é uma casa com fundações inabaláveis e um telhado indestrutível. Ele teve uma casa assim em tempos, até que foi demolida.
Más metáforas são, ainda assim, mais desculpáveis do que a absurda abertura do livro onde inúmeros nomes de ruas de Lisboa são citados. Além de proporcionar sonoridades exóticas,  a geografia inútil só serve para maçar, mesmo aqueles que não conheçam a Língua Portuguesa.
Até mesmo nisto se vê a indecisão de Martel, pois se todo o livro é uma parábola, que evitasse as exaustivas descrições dos problemas que o Renault dá ao longo do caminho.
Yann Martel não sabia qual dos livros escrever e escreveu os três. Agregou melhor a primeira e segunda parte, deixando para a terceira (e menos má) um remate mal conseguido. O todo é, aqui, menor do que a soma das suas fracas partes.
Para um livro que durante dois terços quer fazer crer que a escrita e a sua interpretação podem refazer a ligação entre o Homem e Deus, não há pior do que falhar ele próprio em qualquer solidez literária.
A única indecisão de que Martel não sofre é aquela que o condena, pois continua a perseguir reflexões sobre a influência da religião (da crença, será mais justo) nas pessoas confrontadas com a morte.
Até mais especificamente, sobre a aceitação da ficcionalização como elemento preponderante da experiência espiritual de cada um.
Um objectivo que se projecta como ainda mais pretencioso do que é perante a falta de qualidade do trabalho que o sustenta.
Ficasse ele pela simplicidade - com as histórias trabalhadas como contos cómicos - e seria a sua imaginação digna de alguns elogios.


As Altas Montanhas de Portugal (Yann Martel)
Editorial Presença
1ª edição - Abril de 2015
320 páginas

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um pouco de nada para todos

S. J. Watson criou um livro surpreendente que continua a merecer elogios pela sua estrutura. Este seu novo livro é uma negação do primeiro, um falhanço completo de estrutura e precisão.
O thriller que este livro deve ser aparece afogado em longos bocados de ficção que são contraditórios ao género.
A preparação dramática da trama é um longo dramalhão de arrependimentos familiares e descobertas de casos amorosos que não consegue criar um passado substancial para o personagem principal - nem vale a pena falar nos restantes... - e, portanto, tornar Julia cativante como porta de entrada no universo do livro.
Ultrapassar o ritmo lento desta parte do livro é um feito tornado mais difícil pela escrita do autor que não tem a assertividade para encaminhar a tramar nem, pelo contrário, se esforça em criar um ambiente de tensão à força da expressividade.
Lá chega o ponto de viragem, em que se espera que as circunstâncias estejam bem assentes para que os acontecimentos possam encadear-se e - finalmente! - levar o livro na direcção do que prometia.
A partir daí o autor dedica-se antes a um romance de cariz marcadamente sexual, que tenta ter um negrume a si associado mas não é mais do que um discorrer sobre o adultério do que era até ali uma mulher bem casada e que parece ter tido uma crise perante a morte da irmã.
Há traços de manipulação nesta parte da história e a procura de explorar os perigos de se entregar nas mãos de um desconhecido - sobretudo via internet - mas isso ocorre por entre um texto que parece ser já de um livro completamente distinto do que era na parte anterior, já de si muito distinta daquilo que o livro anunciara.
Quase como um truque de magia mal executado, o autor parece ter achado que o melhor seria adormecer o leitor para depois fazer surgir a reviravolta.
Esta é demasiado complexa para disfarçar a composição simplista que lhe deu origem, o que curiosamente vem negar a necessidade do romance erótico no miolo da trama.
Na parte final a manipulação via internet torna-se o grande tópico do livro, desmultiplicando-se de tal forma que fica demonstrado que havia maneiras mais simples do vilão conseguir os seus propósitos sem recorrer a expedientes cujas morosidade e dificuldade de execução fariam corar alguns génios do crime.
Muito embora génio não seja uma característica necessária no que toca a quem manipula Julia, um personagem idiótico.
A sua iniciativa de entrar nos chats em que a irmã arranjava encontros para procurar o seu assassino pode parecer uma atitude temerária embora pouco ajuizada. Ainda assim é a sua decisão mais razoável.
Todas as que se seguem são motivadas por uma profunda ignorância, das regras mínimas de segurança online, por exemplo, ou por uma confrangente irracionalidade.
Más decisões que ocorrem para fazer avançar os resquícios de uma trama. Julia está ao serviço da trama que lhe faz um desserviço a ela.
Esta característica do personagem central torna a reviravolta ainda menos aceitável e, em geral, o livro ainda menos agradável de seguir.
Julia deveria, talvez, ser perdoada pela sua composição. Apesar de tudo, ela não é mais do que a linha mestra com que S. J. Watson tenta ligar três (pedaços de) livros em três géneros com mercado.
O autor pode ter tentado garantir vendas transversais do seu segundo trabalho ou, simplesmente, ter dado um pouco de tudo a cada leitor.
O que ele conseguiu, pelo contrário, foi fazer deste Segunda Vida um vazio.


Segunda Vida (S. J. Watson)
Jacarandá
1ª edição - Novembro de 2015
408 páginas